Crônica
Crônica da fila do pão: sobre saudade, política e a mania de opinar na vida dos outros
Há muito tempo eu não sentia isso. Mas hoje senti. Saudade.
Saudade de ir à padaria e simplesmente comprar pão. Porque hoje, esse ato tão banal virou um teste de paciência. É preciso fechar os ouvidos para as conversas paralelas da fila — aquelas que, quando não são sobre ilícitos que alguns fazem questão de anunciar em voz alta, são sobre política. E lá vem o aposentado reclamando do governo, com seu político de estimação no bolso, culpando a nova geração por tudo: "essa juventude não quer nada com nada", "o país só vai piorar", "o outro era melhor", "se todo mundo rouba, todos deveriam ser presos".
E esse papo chato logo às 7 da manhã, na fila do pão, num bairro de baixa renda da zona oeste — um bairro controlado por forças paralelas, onde o Estado não se faz presente —, vindo de um senhor azedo que faz questão de azedar a manhã de todo mundo. Ele se indigna com uma notícia que viu na TV da padaria, sintonizada no canal de notícias, sobre o roubo de uma bicicleta elétrica na zona sul. Porque, para alguns, é normal que quem não tem dinheiro roube de quem tem.
Ninguém acha nada disso normal. Mas convenhamos: se ele, que já deve ter seus setenta e lá vai fumaça, não conseguiu resolver nem a própria vida — não saiu do bairro, não melhorou de condição —, vai resolver o Brasil?
Quem está de fora do problema sempre tem solução para o problema dos outros. O engraçado é que não resolvem nem os próprios. E se fosse como ele diz, culpando a geração posterior à dele, caberia a pergunta: o que a geração dele fez de bom para o país? Que legado deixou para quem veio depois?
É incrível como as pessoas aprendem a falar. Dizem-se acima da média, mas não aprenderam a pensar. Aprenderam a alimentar o ego, acham que sabem coisas que não sabem. Falta olhar para dentro de si — ver onde você está, onde você se encontra — e reconhecer a própria insignificância.
Porque, se fosse alguém realmente entendido, não estaria numa fila de pão de um bairro de baixa renda falando besteira, e sim em Brasília, brigando com seus pares, tentando mudar o país que, segundo ele, não dá a mínima para ele.
E você? Já parou para ouvir a fila do pão hoje?

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