O Chão da Roda não Mente

O Chão da Roda não Mente: A Capoeira entre a Essência e o Comércio

O Chão da Roda não Mente: A Capoeira entre a Essência e o Comércio

Introdução: A origem na rua e a descoberta do corpo

A capoeira, essa dança-luta, nasceu nas ruas do Brasil como uma forma de resistência, um diálogo silencioso entre dor e alegria. Eu, Márcio, capoeirista desde os 19 anos, sou um produto desse chão batido, onde a graduação era invisível e o respeito se conquistava na malícia e na habilidade de sustentar o jogo. Nos anos 90, aprendemos a arte pelo corpo, ouvindo os ecos da tradição em rodas que pulsavam vida e ensinamentos. Contudo, a capoeira que hoje observo se distorceu, esvaindo-se entre as frestas do mercantilismo e da indústria da graduação.

Desenvolvimento: O choque entre o respeito antigo e o mercantilismo atual

A tradição oral da capoeira, antes rica e vibrante, parece ter se tornado um telefone sem fio. Mestres que, para validar seus egos, criam linhagens que nunca existiram. O que poderia ser um diálogo sobre a evolução e o respeito se deturpa em uma competição mesquinha sobre quem detém a maior "autorização" ou "título". Essa busca exacerbada por credenciais transforma a essência da capoeira em mera moeda de troca, onde a autenticidade é sacrificada no altar da fama e da visibilidade.

A institucionalização da ganância é um dos aspectos mais alarmantes dos grupos modernos. O que antes era uma roda de amigos e aprendizes agora se assemelha a uma empresa, onde o aluno se torna uma "unidade de faturamento". CNPJs, editais de prefeitura e leis de incentivo pavimentam o caminho para a distorção dos valores. Cobrar taxas exorbitantes por títulos, como o de Professor, sem oferecer um devido preparo pedagógico ou mesmo instruções de primeiros socorros, demonstra que muitos não se importam com a segurança e o bem-estar de seus alunos. A capoeira, antes uma celebração da vida, agora se transforma em um negócio, com poucos verdadeiramente comprometidos com a arte e sua evolução.

A falácia do "Mestre Intocável" também merece destaque. Aqueles que usam a hierarquia como escudo, pregando que a capoeira é uma luta, mas que se esquivam da responsabilidade do contra-ataque, trazem uma hipocrisia grave à tona. A ideia de que um mestre pode intimidar e agredir alunos menos graduados revela uma falta de caráter: a capoeira deve ser um espaço de crescimento mútuo, não um território para abusos de poder.

A falta de didática e a ausência de preparação são mais preocupantes do que imaginamos. A prática insegura e violenta ensinada a iniciantes gera um ciclo vicioso que pode levar a danos permanentes. Isso é ainda mais danoso nas escolas, onde crianças, com toda a sua inocência, são expostas a mestres que não compreendem a importância de sua função. A covardia de quem “lava as mãos” quando a justiça aparece é um reflexo de uma comunidade que não está disposta a se confrontar com suas falhas, preferindo esconder a sujeira debaixo do tapete ao invés de enfrentar a realidade.

Neste caótico cenário, a capoeira deve ser vista como uma leitura do mundo. Não se trata apenas de ser um jogador ágil ou um lutador competente, mas de desenvolver a capacidade de observação e cautela diante das armadilhas que a vida nos apresenta. A verdadeira capoeira vai além das rodas físicas; ela é uma filosofia que se aplica em todos os aspectos da vida. O afastamento ético de muitos veteranos se justifica nesse contexto – é preferível treinar sozinho em casa do que se misturar com a falta de lealdade e com sujeiras políticas que infestam os grupos atuais.

Conclusão: A capoeira invisível

O silêncio e o afastamento, muitas vezes vistos como fraqueza, podem ser, na verdade, o último grande golpe de mestre na preservação da arte da capoeira. Neste momento, em que a ética parece ter se perdido entre titulações e egoísmo, é crucial lembrar que o chão da roda não mente. A verdadeira capoeira resiste nas sombras, nas esquinas e nos espaços onde o respeito e a habilidade ainda prevalecem.

Por isso, é urgente que voltemos a olhar para a capoeira como a arte que ela deve ser: uma expressão de resistência, um diálogo de respeito e uma escola de vida. Mesmo que a roda esteja cheia de vozes dissonantes, a essência da capoeira permanecerá viva em quem realmente entende e ama essa arte. Se não preservarmos e respeitarmos suas raízes, perderemos o que é mais precioso: a capacidade de transformar não apenas nossos corpos, mas também nossas vidas por meio dessa arte mágica.

E para quem deseja refletir ainda mais sobre as transformações e perdas que a capoeira enfrenta, convido você a conferir meu próximo artigo, “A Capoeira Que Eu Perdi No Caminho”, onde abordarei de forma mais pessoal as lições e misses de uma jornada que foi profundamente moldada por essa arte. Acesse e continue essa reflexão sobre o que realmente significa ser capoeirista nos dias de hoje.

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