O design não acabou

O design não acabou: está mudando — e quem não se adapta, perde clientes

Reflexão sobre como o mercado de design se reorganiza, por que Canva e IA não são vilões e o que fazer quando clientes somem.

Eu já vi esse filme antes. De tempos em tempos, surge alguém dizendo que o design vai acabar. Já disseram isso quando o computador chegou, quando o Photoshop popularizou, quando os sites de logo automático apareceram, quando o Canva cresceu e, agora, com a inteligência artificial. E, curiosamente, o design continua aqui. Não porque o mercado seja generoso, mas porque ele muda — e quem não muda com ele, fica para trás.

Recentemente, eu assisti a um vídeo em que um designer experiente comenta e rebate o desabafo de outro profissional que afirmou ter perdido todos os clientes e que o mercado de design estaria acabando, especialmente por causa do Canva e da IA. A discussão me chamou a atenção porque toca em feridas reais: frustração, medo, ego e a dificuldade de encarar que o problema, muitas vezes, não é a ferramenta — é a postura de quem usa ou deixa de usar.

Neste artigo, eu quero refletir sobre esse embate com calma, como alguém que também já perdeu clientes, já se sentiu injustiçado e já pensou em chutar o balde. Mas que, no fim, entendeu que o mercado não morre: ele se reorganiza.

O que acontece quando alguém diz que “o design acabou”

Quando eu ouço alguém dizer que “o design acabou”, eu já desconfio. Não porque a pessoa esteja mentindo, mas porque ela está olhando para o próprio umbigo e generalizando uma experiência particular. É compreensível: quando a gente perde clientes, a sensação é de que o mundo desabou. Eu já passei por isso. Já tive fases em que perdi alguns dos meus melhores clientes, depois perdi outros, e cheguei a pensar que o mercado tinha virado as costas para mim.

Só que a verdade é mais dura e mais libertadora: o mercado não virou as costas para todo mundo. Ele virou as costas para quem não estava mais resolvendo o problema dele.

O narrador do vídeo é enfático: perder clientes faz parte do mercado. Não significa que a profissão acabou. Ele mesmo já passou por isso e reconstruiu sua carteira. E eu acredito nele, porque já vivi algo parecido. A diferença entre quem se recupera e quem fica pelo caminho não é sorte: é atitude.

Canva e IA não são vilões — são espelhos

Eu entendo por que tanta gente culpa o Canva. Ele democratizou o design. Hoje, qualquer pessoa com acesso à internet consegue montar um post, um flyer, um cartão de visita. E sim, isso tirou do designer uma parte do trabalho que era puramente operacional. Mas aí eu pergunto: esse trabalho sempre foi o coração da profissão?

O narrador do vídeo é direto: o problema não é o Canva ou a IA, mas a incapacidade de alguns profissionais de se adaptarem, se posicionarem e resolverem o problema do cliente. E eu concordo. O Canva não entrega estratégia, não entende contexto, não constrói identidade com profundidade, não senta com o cliente para entender o negócio dele. Ele entrega velocidade e conveniência. E é isso que muita gente queria desde o início: algo rápido, barato e “bonitinho”.

Se o seu cliente foi embora porque encontrou no Canva algo “suficiente”, talvez ele nunca tenha sido seu cliente de verdade. Ou talvez você não tenha mostrado a ele o valor do que você faz além da execução. Essa é uma verdade incômoda, mas necessária.

A IA segue o mesmo caminho. Ela não substitui o designer; ela substitui tarefas repetitivas. Quem sabe usar IA a seu favor ganha tempo, escala produção e entrega mais valor. Quem só reclama dela está perdendo uma ferramenta poderosa — e, pior, está perdendo tempo.

O mercado não está morrendo — está mudando

Eu já vi o mercado de design passar por várias crises. E em todas elas, o discurso era o mesmo: “agora acabou”. Mas o que eu vi foi o mercado se transformando. Surgiram novos nichos, novas demandas, novas formas de cobrar e de entregar.

O narrador do vídeo lembra que, quando lançaram sites de logo automática, ele pensou: “se os caras estão fazendo isso, então o meu trabalho vai acabar”. E aqui estamos, mais de 12 anos depois. Ele continua cobrando caro, continua tendo clientes e continua trabalhando. Por quê? Porque ele entendeu que o valor não está na ferramenta, mas na capacidade de resolver problemas.

Quem entrega qualidade e valor continua sendo contratado, inclusive cobrando caro. O mercado não está morrendo; está mudando. E quem não percebe isso fica preso no discurso derrotista de que “nada mais faz sentido”.

O problema do ego e do ranking

Uma das partes que mais me chamou a atenção no vídeo foi quando o narrador critica o entrevistado por se dizer “entre os 50 melhores designers de embalagem do mundo” e, mesmo assim, ter perdido todos os clientes. Para ele, isso desmoraliza o suposto ranking e revela incompetência ou falta de adaptação.

Eu concordo em parte. Títulos e rankings podem ser importantes para posicionamento, mas eles não seguram cliente nenhum se o profissional não estiver disposto a ouvir, adaptar e entregar o que o mercado pede. De que adianta estar em um ranking se você não consegue manter uma carteira? De que adianta se dizer o melhor se os clientes estão indo embora?

O narrador vai além: ele diz que, se o seu trabalho é bom, os clientes vão atrás de você. Se você tem capacidade de resolver o problema do cliente, eles pagam o valor que você cobrar. Se você está perdendo cliente, é porque está sendo incompetente de fazer o que eles precisam. Essa fala é dura, mas é um chacoalhão necessário.

Eu já me peguei pensando que o problema era o mercado, quando na verdade eu precisava rever minha proposta, meu atendimento, minha comunicação. O ego é um péssimo conselheiro quando o assunto é sobrevivência profissional.

Atitude: o que separa quem cresce de quem reclama

O narrador do vídeo é enfático: em vez de culpar ferramentas e prever o fim do design, o profissional deve arregaçar as mangas, buscar novos clientes e evoluir. E eu sei que isso é mais fácil falar do que fazer. Quando a gente está no fundo do poço, a vontade é de xingar todo mundo, chutar o balde e abrir um restaurante bistrô — como o próprio entrevistado mencionou.

Mas a verdade é que atitude importa. Eu já perdi clientes e já me senti tentado a desistir. O que me salvou foi lembrar do mesmo empenho de quando consegui esses clientes. Lembrar do momento em que eu comecei, de como eu trabalhei para conseguir o que tenho hoje. E tacar o pau.

O narrador diz que se decepcionar é normal, que a gente acha que não tem mais solução e que o mundo vai acabar. Eu entendo perfeitamente. Mas isso é apenas uma fase — e talvez um teste para saber se você tem peito para aguentar algo maior. Só depende de você.

O que eu aprendi com tudo isso

Eu aprendi que o design não acabou. Está mudando. E quem não se adapta, perde clientes. Aprendi que o Canva e a IA não são vilões; são espelhos que mostram quem entrega valor e quem só executa. Aprendi que rankings e títulos não seguram carteira; atitude e resultado, sim.

Aprendi também que o discurso derrotista é contagioso e perigoso. Quando alguém diz que “o design já era”, eu fecho o ouvido e vou procurar outra coisa para fazer — porque quando a pessoa fala isso, é porque ela quer falar o que ela vai falar, não porque o mercado realmente acabou.

O narrador do vídeo termina dizendo que já perdeu tempo demais respondendo a esse tipo de bobagem, mas que o fez mais pelo conteúdo útil para a audiência do que pela pessoa que fez o desabafo. Eu entendo. Às vezes, a melhor resposta não é para quem reclamou, mas para quem está começando e precisa de direção.

Se você está perdendo clientes, respira. Para um momento. Reflita sobre tudo que está acontecendo na sua vida. Pergunte a um profissional se essa área é para você. Mas sempre filtre aquilo que você vai ouvir. Porque você pode conversar com um cara que está se esbaldando em uma maré de bons trabalhos, ou pode conversar com um cara que está afundando e quer levar todo mundo com ele.

O mercado não está morrendo. Está mudando. E quem entrega qualidade e valor continua sendo contratado — inclusive cobrando caro. A escolha de evoluir ou reclamar é sua.

Fonte: Q28a

Resumo: O design evolui, ferramentas mudam, mas o valor de quem resolve problemas e entrega qualidade permanece.

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