Crônica: A Trilha da Capoeira e a Música das Motocicletas
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Crônica: A Trilha da Capoeira e a Música das Motocicletas
Na ladeira que leva ao coração da cidade, o sol da manhã derrama suas cores quentes, acordando as ruas de um jeito que só o Rio de Janeiro sabe fazer. A capoeira, arte que dança na poesia dos movimentos, molda-se entre os ângulos e curvas das calçadas, enquanto os motociclistas fazem o mesmo, cortando o vento com a bravura e a liberdade que só duas rodas oferecem. O ritmo desta cidade é, sem dúvida, uma mistura vibrante de cultures, e essa fusão é o que une os capoeiristas e os motociclistas em uma sinfonia única.
Hoje, nosso protagonista, o mestre Garnizé, convoca uma roda de capoeira em sua sede, enquanto um grupo de motociclistas se prepara para dar partida em suas máquinas em busca de uma nova aventura. A energia é palpável; todos ali compartilham o amor pela liberdade e pela arte. Cada movimento da capoeira é uma conversa, uma forma de expressão que transcende palavras, e cada ronco de motor é um lamento de saudade e um grito de felicidade.
A conversa flui, e entre risadas e memórias, Garnizé narra suas experiências. Ele menciona o tempo que passou no Japão, onde se tornou um defensor da capoeira, levando a arte às terras distantes, onde a cultura brasileira é uma joia rara. “Fui um dos pioneiros”, afirma, com um brilho nos olhos ao recordar os dias em que treinava sob o olhar curioso dos japoneses. Para ele, o aprendizado não foi apenas técnico, mas também cultural. O respeito pelas diferenças se transforma em admiração mútua, e assim, ele tornou-se um elo entre mundos distintos.
Enquanto a roda de capoeira se forma, a música dos berimbaus invade o ar, e o som dos motores é apenas um eco distante. Os capoeiristas se movem ao ritmo da música, suas pernas girando como as engrenagens de uma moto. “Capoeira é um jeito de viver, um compromisso com a liberdade”, diz Garnizé, enquanto um jovem no centro da roda tenta impressionar os mais velhos com suas acrobacias.
A tarde avança e, em meio a um rugido de motores, os motociclistas se juntam à roda. Não é preciso mais que um olhar para que a união aconteça. A linguagem da capoeira é universal, e os motociclistas, com seus coletes e tatuagens contando histórias de estrada e liberdade, são rapidamente acolhidos. Entre um jogo e outro, a roda ganha força, e as risadas e aplausos misturam-se aos gritos das motocicletas que chegam e vão.
“Oi, tenta fazer o martelo inverso”, sugere um dos capoeiristas com um sorriso travesso. Neste mundo, cada golpe possui um nome, uma história, e pode ser tanto um movimento de defesa quanto um convite à dança. Enquanto um dos motociclistas se arrisca a entrar na roda, o clima de camaradagem se intensifica. Os dois universos, que à primeira vista parecem tão distintos, encontram-se em um ponto comum: o respeito pela tradição e o desejo de se expressar.
À medida que o sol se põe, misturando tons de laranja e roxo no céu, Garnizé reflete sobre a força da comunidade. “Estamos todos aqui por um motivo”, diz ele. “A capoeira nos ensina a respeitar e integrar, não importa de onde viemos ou para onde vamos.” As motocicletas e os berimbaus se tornam símbolos de resistência e liberdade, lembrando a todos que a vida, assim como a capoeira, é uma dança em constante evolução.
Assim, nesta crônica da vida carioca, a capoeira e as motos encontram uma harmonia. As rodas giram, os corpos se movem, e a música ecoa, entrelaçando histórias de luta, superação e amor à vida. No final do dia, somos todos parte de uma grande roda, onde cada um, com seu próprio ritmo, ajuda a criar a melodia deste carnaval de cores e sons que é a cidade.
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