Em cada esquina do Brasil, o som do berimbau ecoa como um chamado às tradições que atravessam gerações. A capoeira, essa manifestação cultural que combina a luta e a dança, é um universo à parte, onde a musicalidade e o movimento tornam-se poesia em ação. Em nosso 25º episódio do podcast "Vem pra Roda", sob a batuta do mestre Gunga, a conversa se desenrola em torno das histórias vividas pelos protagonistas dessa arte. Entre eles, Mestre Lobão, uma lenda viva da capoeira, se destaca como um símbolo de resistência, ensinamento e, acima de tudo, amor pela capoeira.
Mestre Lobão, ou Everaldo Bispo de Souza, é um ícone que nasceu em Itabuna, na Bahia, em 1952. Sua jornada na capoeira começou com o mestre Antônio Rodrigues, mas o caminho não foi sempre linear. Ele revela como, em sua busca por aprendizado, foi orientado a "devolver a carteirinha" ao ser incentivado a buscar outros horizontes. Essa passagem, longe de deter seu entusiasmo, só aumentou sua voracidade em aprender e praticar.
A capoeira, para Lobão, é mais do que uma forma de arte. É um empreendimento de vida, que molda caráter, disciplina e comunidade. Ele expressa que a capoeira fez por ele o que muitos pais e professores não conseguiram: oferecer direção. “A capoeira é uma lição de vida”, afirma, refletindo sobre sua experiência ao educar jovens e adultos nas tradições dessa arte tão rica.
No contexto atual, onde a capoeira também é um meio de autoafirmação e expressão de identidade, Mestre Lobão pondera sobre a nova geração de capoeiristas. Existe, segundo ele, uma pressa desmedida para alcançar graduações e títulos, muitas vezes sem a vivência e o respeito necessários para carregá-los. Assim, a capoeira se torna um palco não apenas de lutas, mas de ensinamentos sobre respeito, humildade e o verdadeiro significado de comunidade.
Isso nos leva a uma reflexão sobre a importância da música e da energia nas rodas de capoeira. “Capoeira sem energia não é capoeira”, afirma, ressaltando que cada capoeirista deve contribuir com seu "axé", criando uma atmosfera vibrante que transcende a mera competição. Ele enfatiza que a capoeira é uma arte que deve ser sentida e vivida, muito mais do que um simples jogo de habilidades físicas.
Mestre Gunga e Mestre Lobão também abordam o papel da capoeira na promoção da inclusão e do respeito às diversidades, como a capoeira gospel e a capoeira voltada para a comunidade LGBTQ+. Lobão comenta que o espaço deve ser aberto para todos, mas com um cuidado especial em preservar a essência da capoeira, que é profundamente enraizada na cultura afro-brasileira. “A capoeira é uma coisa de preto”, diz ele, relembrando a necessidade de honrar a história e os ancestrais.
A capoeira é uma escola que ensina sobre a vida, a luta e as adversidades enfrentadas ao longo da história. Assim como os capoeiristas que dançam e lutam, a sociedade também precisa se mover e evoluir. Cada roda é um microcosmo do que somos: alegrias, desafios, risos e lágrimas. E assim como na capoeira, podemos encontrar nossas fortalezas por meio da união e do respeito mútuo.
Com toda essa riqueza cultural, é evidente que a capoeira vai muito além de uma simples prática esportiva. Ela cria laços, promove a inclusão e educa. Os mestres, como Gunga e Lobão, são os guardiões dessa tradição, transmitindo não apenas técnicas, mas também valores que moldam o caráter de quem passa pela roda.
Em um mundo cada vez mais apressado e segmentado, a capoeira se torna uma elixir. Que possamos todos ouvir o som do pandeiro, sentir a energia das rodas e, principalmente, honrar essa arte que é um verdadeiro patrimônio da humanidade. Afinal, a capoeira nos ensina que, mais do que vencer, é sobre se conectar. “A capoeira está aí para todo mundo”, reafirma Mestre Lobão, sem dúvida uma frase que ecoará nas rodas por muitas gerações.
Ao final de cada roda, fica sempre uma lição de que a capoeira é vida, é emoção, é resistência e é, acima de tudo, uma celebração da cultura que nos une. Vamos brindar com alegria e gratidão a essa arte que continua a balançar os corações e as almas de todos que dela se aproximam. E assim, encerramos mais um capítulo das muitas histórias que a capoeira tem a contar.
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