A Influência das Redes Sociais na Política Contemporânea




A Influência das Redes Sociais na Política Contemporânea


Vivemos em um momento peculiar na política brasileira, especialmente desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O que mais me intriga ao observar a atuação de muitos YouTubers e influenciadores é que parece que a política se tornou um assunto comum, acessível a todos, somente a partir desse período. Bolsonarismo, esquerda, direita – todos parecem ter se tornado especialistas em política do dia para a noite. Essa dinâmica levanta questões importantes sobre a real compreensão que temos sobre as nossas instituições e sobre os indivíduos que as ocupam.

Um aspecto interessante a ser destacado é que Bolsonaro foi o primeiro candidato a se eleger sem contar com o espaço tradicional na mídia. Nascido em 1974, minha memória remete às eleições das décadas de 1980 e 1990, em que a influência da internet ainda era um conceito distante. O uso estratégico das redes sociais e da internet proporcionou a Bolsonaro uma vantagem única que, em muitos aspectos, alterou o cenário político no Brasil. Ele se tornou o primeiro presidente a conquistar a vitória sem a necessidade de um horário eleitoral formal, abrindo um precedente e, ao mesmo tempo, acentuando a polarização política que ainda perdura.

Entretanto, o contexto atual levanta um ponto crítico: a transformação da política em uma espécie de time de futebol, onde os partidários defendem seus políticos como torcedores fanáticos. Essa mentalidade é, na verdade, alarmante. Independentemente de ser um político de direita ou de esquerda, a figura que ocupa o cargo não deve ter a liberdade de prejudicar a população. A desculpa de que “aquele também roubou mais” não justifica atos lesivos. O responsável por governar deve servir ao povo, e não se embrenhar em uma disputa de quem é pior ou melhor.

Quando a população se divide em campos opostos, perdemos a capacidade de criticar quem realmente merece. Aplaudimos ações que, sob qualquer viés político, são danosas. O que deve se observar é que, independente de quem esteja no poder, as consequências das más decisões recaem sempre sobre nós – a população. Enquanto os políticos têm acesso a aposentadorias generosas e garantias que o cidadão comum não possui, nós, cidadãos, lidamos com as consequências econômicas de suas falcatruas e erros.

Outro ponto a ser considerado é a apatia de muitos que se declaram apolíticos, afirmando que não votam em ninguém. Essa posição, na verdade, é uma forma de conivência. O silêncio e a inação frente ao sistema político atual contribuem para a manutenção de um estado de coisas que não nos favorece. Quem se omite acaba por permitir que a situação continue, e o que ocorre com os líderes eleitos reflete diretamente na vida de cada um, independentemente do voto.

Vale ressaltar que a política não deve ser consumida como uma forma de entretenimento, como uma música ou filme. Se um conteúdo cultural possui viés político, não há problema em que seja assim. Porém, a escolha de assistir ou não deve ser pautada pela reflexão crítica. Continuar a afirmar uma visão somente porque se simpatiza com um determinado ponto de vista é um sinal de falta de profundo conhecimento e de uma análise crítica.

Acredito que muitos que se posicionam de maneira radical em uma das extremidades, seja à direita ou à esquerda, têm uma formação deficiente sobre o que debatem. Crescemos em uma sociedade onde muitos se tornam "papagaios", repetindo o que ouvem sem buscar uma fundamentação sólida que sustente suas opiniões. É evidente que o conhecimento é frequentemente enterrado em discursos bem elaborados, enquanto a pesquisa e a sede por aprendizado muitas vezes são deixadas de lado.

A busca por um viés de confirmação tem se tornado um fenômeno comum. Se esse texto chegou até você, é possível que você esteja em busca de argumentos que validem suas próprias crenças sobre a política. Isso não é exclusivo das pesquisas no Google, mas também permeia plataformas como YouTube, Instagram e TikTok. Essas redes alimentam bolhas de informação, onde muitas vezes deixamos de lado o conhecimento em favor de uma narrativa que nos conforta.

Neste sentido, iniciativas como Pensando a Democracia (disponível em link) são fundamentais. Elas promovem discussões sobre a construção de uma sociedade mais consciente e crítica, incentivando o debate e a reflexão sobre os valores democráticos. Essa plataforma busca não apenas informar, mas educar cidadãos para que tenham uma participação efetiva e responsável na política, ajudando a desconstruir a polarização exacerbada que tanto nos aflige atualmente.

Portanto, ao nos depararmos com conteúdos que desafiem nossas opiniões, devemos abrir espaço para o aprendizado. Criticar instituições e suas figuras não deve ser uma questão de defesa cega, mas de um exame crítico das ações que impactam nossas vidas. Ao invés de buscar corroborar nossa visão de mundo, temos a obrigação de nos aprofundar mais, ler diferentes fontes e formar nossas próprias opiniões. Isso não só fortalece nosso entendimento sobre política, mas nos torna cidadãos mais conscientes e engajados.

Em conclusão, a política, ao contrário do que muitos pensam, não se resume a um jogo de lados. Trata-se de responsabilidade, comprometimento e, acima de tudo, de um entendimento profundo sobre as consequências de nossas escolhas e opiniões. A partir do momento em que conseguirmos desassociar a política de um entretenimento e encará-la como parte fundamental da nossa vida social, poderemos avançar em direção a um debate mais saudável e construtivo. Devemos lembrar que a verdadeira mudança começa dentro de nós, com a disposição de questionar, aprender e evoluir.

Comentários